segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Dark side


                Ela é maldita. Sempre tentando tomar meu lugar.
                No trabalho age devagar, comendo-me pelas beiradas, relatando meus deslizes. Ela é baixa, faz qualquer coisa para assumir as rédeas. Mas mantenho-me forte. Respiro fundo, conto até cem e deixo minha mente em branco. Relaxo meus membros e ela parece sumir.
                Meu dia transcorre perturbado e sigo até em casa sentindo olhares estranhos sob mim, olho para o chão e tento não correr. Subo no metrô, sento-me encolhida e novamente as sombras estão lá chamando por mim, aclamando minha presença, perturbando-me. Corro da estação até minha casa.
                Mas no outro instante lá está ela, encarando-me pelo espelho do banheiro. Seu olhar é pura maldade e malícia, toda a sua face é de um branco impecável, as maçãs do rosto proeminentes, nariz arrebitado, cabelos negros e lustrosos. Ela era a personificação do demônio, eu podia sentir as más vibrações vindas em ondas até mim.
                - É a minha vez – sua voz era profunda.
                Fechei meus olhos fortemente, protegendo-me em um canto trancado em minha mente, então eu podia sentir sua respiração em meu ombro, suas unhas escarlates correndo os meus braços. Arrepios profundos me invadiam. Era um misto de emoções.
                Medo.
                Principalmente o medo.
                Ele descia como uma bola massiva junto a minha espinha, me fazendo tremer dos pés a cabeça. Mas eu não abria meus olhos. Eu não podia olhar.
                Meu medo a deixava mais forte. Meu medo a alimentava.
                Respirei fundo deixando meus pulmões trabalharem, o suor brotando em todos os cantos do meu corpo. Aos poucos a sensação de suas unhas sob minha pele sumiam, assim como a respiração em minha nuca.
                Era seguro abrir os olhos.
                Assim que cometo a burrice de abri-los, eu vejo seus olhos injetados de sangue. Eu grito. Grito tão alto quanto meu fôlego permite.
                Mas nada a impede.
                Suas mãos brancas como a neve voam para o meu pescoço, sua força é brutal, esmagadora. Suas unhas rasgam minha pele e eu posso sentir o sangue escorrendo. Me debato, minhas mãos tentam conter as dela, minhas pernas fraquejam e seu aperto não diminui. Ela bate minha cabeça na pia e tudo que eu consigo sentir é dor, o sangue está por toda parte. Acerto uma cotovelada em seu estômago e ela se irrita e me joga de encontro ao espelho que rapidamente se parte.
                O sangue parece sair de cada orifício de meu corpo, tudo dói, minha consciência está por um fio e ela sabe disso.
                E em um momento de espanto vejo que ela permanece ali, me fitando com olhos desgostosos, com aquele ar superior que só ela possui.
                Ela me põe de pé, minha visão é turva. É como ver através de um vidro embaçado, eu só posso ouvir sua voz.
                - É a minha vez – repete – Você é uma fraca, inútil, não merece respirar. Escória humana. É a minha vez de ter tudo para mim.
                Lentamente minha visão vai melhorando, ainda dói como o inferno, mas consigo enxergar meu reflexo.
                Os olhos injetados agora eram os meus, o sangue escorria por meus lábios e lentamente a minha reflexão lambeu seus lábios e sorriu.
                Ela estava em mim.
                Ela finalmente havia ganhado a batalha.  

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